e tudo já
está dado!
pra que
se aprofundar?
me abstenho.
me poupo.
está tudo
consumado.
sou só eu e indo...
sem problemas,
sem mais.
não quero
me sufocar
me empanturrar
me afogar...
um basta às teorias!
chega de pensar!
vou só eu e com os fatos
dados,
tácito.
pra que se
preocupar?
tudo já está!
o ônibus
a bicicleta
o chinelo
o andar!
ela, meu par.
tudo, tudo mesmo
já há...
não quero saber
de problematizar.
não quero "por quê"...
nem, nem vem,
não quero saber!
quero o simples
o claro
o rápido
sopro fraco pelo mar...
nem adianta
se queixar.
quero é estar.
aqui
ali, acolá.
dentro de mim
perto do outro
longe do fim.
na esquina
no acaso
na sala.
onde tudo
puder poder
quero estar.
ser e pensar?
aí, já é demais.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
eu fico imaginando
o que vou dizer
eu penso muitas vezes
antes de escrever.
sou meio torto e reles
necessito me precaver.
o que vou dizer
eu penso muitas vezes
antes de escrever.
sou meio torto e reles
necessito me precaver.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
musa
o não-grande artista
diz muito,
saca feelings
miúdos,
é astuto, prático,
um marulho.
promove rasas
viagens,
diz do isqueiro,
da folha, da brasa,
do meio-fio,
e mesmo assim
é grande marinheiro.
não se preocupa
com as ciências,
vôos além-ar,
nem topa miragens.
tampouco transcende
(não aparenta).
pois que canta
o simples poder
de ser vida,
de estar entre
as coisas, as pessoas
e mosquitos.
sente prazer
em ser triste,
aproveita o café
e recorda meninices.
assiste futebol,
xinga e esbraveja.
roga aos céus perdão,
sente inveja.
não tem medo de sangue,
anda só pela rua,
não gosta de ianques.
sujeito aéreo
e estanque,
dizem: é meio
sem cérebro
nem leu o bastante.
mas tudo que ele faz
é sentir.
é ter à flor da pele
o vento, a verve.
promovedor de sonhos,
ele mesmo apanha.
ama, é covarde,
estende a mão
e recebe desdém.
dorme muito,
diz besteiras
e é brincalhão.
dizem que seu
brilho é pouco,
e que as coisas
que diz
não valem muito.
poucos o chamam poeta.
lhe falta
bom senso de sintaxe,
o correto
posicionamento das vírgulas
e as figuras de linguagem.
pois eu discordo,
e o invejo.
um dia serei como ele,
puro sentir na pele,
sem precisar de estudos
ou tolos parabéns.
diz muito,
saca feelings
miúdos,
é astuto, prático,
um marulho.
promove rasas
viagens,
diz do isqueiro,
da folha, da brasa,
do meio-fio,
e mesmo assim
é grande marinheiro.
não se preocupa
com as ciências,
vôos além-ar,
nem topa miragens.
tampouco transcende
(não aparenta).
pois que canta
o simples poder
de ser vida,
de estar entre
as coisas, as pessoas
e mosquitos.
sente prazer
em ser triste,
aproveita o café
e recorda meninices.
assiste futebol,
xinga e esbraveja.
roga aos céus perdão,
sente inveja.
não tem medo de sangue,
anda só pela rua,
não gosta de ianques.
sujeito aéreo
e estanque,
dizem: é meio
sem cérebro
nem leu o bastante.
mas tudo que ele faz
é sentir.
é ter à flor da pele
o vento, a verve.
promovedor de sonhos,
ele mesmo apanha.
ama, é covarde,
estende a mão
e recebe desdém.
dorme muito,
diz besteiras
e é brincalhão.
dizem que seu
brilho é pouco,
e que as coisas
que diz
não valem muito.
poucos o chamam poeta.
lhe falta
bom senso de sintaxe,
o correto
posicionamento das vírgulas
e as figuras de linguagem.
pois eu discordo,
e o invejo.
um dia serei como ele,
puro sentir na pele,
sem precisar de estudos
ou tolos parabéns.
sábado, 17 de outubro de 2009
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
assim, assim
eu já sou,
já tô aqui,
basta!
mas ainda
tem aquele
papo de escolher,
de querer.
coisa mais chata!
já não chega?
eu vim,
vi,
tô vivendo.
me jogaram aqui
e nem perguntaram
se eu estava
afim.
agora,
pronto,
basta.
me jogaram
e eu estaco!
mas não...
tudo sufoca,
obriga a atacar.
se vira,
meu cumpadi!
aquela menina
tu tá afim?
vai lá falar.
aquele emprego
te interessou?
tem que estudar.
aquela flor,
você gostou?
não basta olhar.
tem que colher.
passarinho bom
é o que se basta
pelo ar.
passarinho
feito eu
tem que bater asas,
não basta
só planar.
já tô aqui,
basta!
mas ainda
tem aquele
papo de escolher,
de querer.
coisa mais chata!
já não chega?
eu vim,
vi,
tô vivendo.
me jogaram aqui
e nem perguntaram
se eu estava
afim.
agora,
pronto,
basta.
me jogaram
e eu estaco!
mas não...
tudo sufoca,
obriga a atacar.
se vira,
meu cumpadi!
aquela menina
tu tá afim?
vai lá falar.
aquele emprego
te interessou?
tem que estudar.
aquela flor,
você gostou?
não basta olhar.
tem que colher.
passarinho bom
é o que se basta
pelo ar.
passarinho
feito eu
tem que bater asas,
não basta
só planar.
domingo, 9 de agosto de 2009
Um certo ganho
Sou um cara simples. Acho que sempre fui, desde moleque. Meus gostos são meio corriqueiros, fáceis, táteis; coisas do cotidiano: andar sentindo uma brisa fresca no rosto, assistir filmes bons, comer de madrugada, ser afagado pela minha mãe e me sentir valorizado por alguém. Gosto muito também do cheiro do mar, da aderência da areia na sola do pé, da cor da maioria das flores, do brilho diferente que elas ganham sob variadas luzes e partes do dia, de escutar a discussão alta no vizinho, de acertar a bolinha de papel na lixeira do meu quarto e de xingar assistindo futebol.
Acho que esses meus gostos pra lá de habituais provêm da infância que eu tive. Dela guardo algumas lembranças, bem singelas, mas que são uma marca bem forte na minha personalidade. Às vezes eu tenho a impressão de que mesmo com o passar dos anos, e elas bem lá no fundo, são essas recordações o que de mais forte há em mim, e de mais fino no meu modo de encarar as coisas.
Lembro da tia Joana dizendo que o canto do sabiá era agourento, no quintal lá de casa. Da minha mãe xingando, quando queimava a mão na panela, ou conversando com a minha outra tia, pelo basculante da cozinha; discutindo o que ia acontecer na novela ou o penteado da dona Marluce. Recordo meu pai chegando tarde e me perguntando se eu já tinha jantado, despenteando meu cabelo, me chamando de sacana. Lembro de soltar pipa, jogar pião, e não saber muito bem amarrar os meus cadarços. Também me escondia no canto box na hora do banho, bem longe do chuveiro, matava formiga no quintal pra dar de comer à aranha e chutava o chão jogando bola. Além do mais, arrumava umas briguinhas na escola e roubava umas balas da cantina.
Hoje, eu sou muito disso tudo. Até com os cadarços ainda tenho uma relação de pouca intimidade. Além disso, não prezo muito pelas grandes coisas, e às vezes acho que até as quero longe de mim. Odeio complicações,discussões, citações. Quero pra mim simplicidade, cara lavada, cores neutras, sem disfarces. Relacionamentos sem grandes reviravoltas ou confusão. Minha vontade mesmo é de ver as coisas transcorrerem tal como elas acharem melhor, tal como elas queiram. Até uma complicação é menor se ocorre quando tinha de ser.
Depois de ser um aluno nota sete na escola, pelo menos na maioria das matérias, não ter conseguido passar no vestibular pra uma universisade pública, ter me formado em administração numa particular, com meu pai pagando pra mim, com grana suada, suada, agora eu trabalho num escritório, no centro da cidade, e moro sozinho num quarto e sala na Glória, no terceiro andar e com vsita pra parede do prédio vizinho. Pago um aluguel no preço de mercado, e ganho razoavelmente bem no meu serviço. Vem bastante gente aqui em casa. Trocar idéia, beber cerveja, jogar baralho, assistir um filme. Tenho alguns bons e velhos amigos, tipo o Rubinho e o Denis. Camaradas mesmo. Toda sexta é certo de a gente se ver, aprontar alguma por aí, beber todas, escutar música boa, cantar junto. Aliás, gosto muito de samba, e da sensação boa que ele dá. Os caras costumam falar de uns sentimentos que eu ainda não conheço. Aquela tristeza entranhada, por conta de alguma mulher que perdeu, aquela felicidade de arromba, no ritmo do churrasco no fundo do quintal e até daquelas birras e rivalidades entre escolas de samba. Eles cantam tudo isso, e eu nem entendo direito; mas gostar... gostar eu gosto! Gosto do ritmo, da atmosfera, e nem precisa ter por quê. Gosto também, de nessas saídas que a gente dá, conhecer gente, principalmente à noite, prioritariamente mulheres... hehe. Mamãe diz que eu não sou feio, e eu levo até certo jeito com as mulheres. Costumo me dar bem, sim. Difícil a noite que eu não fico com alguém. E sempre eu gosto dessa alguém. Não fico por ficar. Mas tem a Márcia. A Márcia é um caso meio antigo, a gente se vê bastante, eu gosto muito dela, mas acho que ela não é minha namorada. Na verdade a gente nunca entrou nesses pormenores. A gente se gosta, se aprecia, ri junto, sente tesão um pelo outro e acaba se vendo muito, e ficando junto, e pronto.
Tudo comigo é meio natural, espontâneo. Não ligo pra quase nada, não crio caso e pago pra não me incomodarem, não me tirarem do meu sossego; me deixarem quieto com minhas músicas, meus livros, meu sono, quando eu quero. Às vezes meu barato é de olhar pro alto, ver as estrelas brilhando no céu, ou então reparar no movimento das nuvens, numa tarde de sol; só isso. Será que eu posso? Noutras eu gosto de ver uns programas na tv, uns caras tampando na porrada, meu time jogando, uns sabichões discutindo asneiras, ou debatendo sobre algum disco do Gil, do Chico ou dos Mamonas. Sinto angústia quase toda terça, e quase todo dia lá pelas 2 e pouca da tarde, e nem sei por quê.
Agora, hoje, é domingo, 5 e 43 da tarde, e eu tô com o bilhete da Mega-sena na mão. Sabe de uma coisa? Eu ganhei. Mas não conta pra ninguém. Eu ganhei, e disso pode ter certeza. Já olhei, conferi e revisei esses benditos números muitas e muitas vezes, desde as 2 e tal, desde a hora da minha angústia. E, ao invés daquela felicidade sufocante que eu pensei que fosse sentir numa ocasião dessas, em vez daquela vontade de gritar que eu supunha que me tomaria, eu tô aqui sentado, sozinho e quieto, tomando o café frio que sobrou de de manhã. Porra, 35 milhões na minha mão! E agora, o que é que eu faço?
Eu sempre tive medo de endeusar alguma coisa. Endeusar alguma mulher, algum emprego, algum status. Nunca quis ser um merdinha que vive a vida tendo em vista algum objetivo rígido ou preso a algum dogma. Agora vem essa grana toda na minha mão, querendo se tornar o meu deus. Ligo pra alguém? Peço conselho? Minha mãe? Meu pai? A Márcia, que às vezes parece que me entende mais até que eu mesmo? Acho que não. A decisão é minha.
Eu acho que essa grana seria bem útil, na verdade. Se eu aplicasse ela, deixasse rendendo, talvez eu nunca mais precisasse trabalhar, iria viver a vida no bem bom, quem sabe tranquilão pra poder ver as coisas correrem, como eu sempre quis... Mas não! Porra, não! Alguma coisa aqui em mim diz que não. Diz que eu iria, assim, estar vivendo em função de alguma coisa, com um guia lá no altão, me prendendo e manipulando. Talvez essa minha vida de acordar, trabalhar e voltar pra casa. De beber, rir, me animar e voltar pra casa. De ir ao maraca, ganhar ou perder, e voltar pra casa, seja mais livre do que a que eu teria sendo milionário, não tendo obrigação nenhuma.
Tô numa dúvida fudida e não sei o que eu faço. Acho que eu vou dar esse bilhete premiado pro primeiro bebum que eu ver ali na esquina, e continuar vivendo a minha vida na minha, sem grande alardes. Imagine a felicidade do cara?! Ia ser bem legal! Mas... não, não. É meu! Tsc... eu não devia ter pego a droga do troco da conta de luz e ter feito esse jogo. Aí, agora, eu não estaria passando por esse aperto de ter que tomar uma decisão dessas. Meto ou não a mão nessa grana? Faço uma bolinha desse papel milionário, jogo no lixo e continuo na minha, na mesma? Eu não ligo de estar na mesma, minha vida é boa e, se eu não sou feliz o tempo todo, tenho sim uns bons e belos momentos de felicidade. Como eu já disse, me contento com pouco. Consigo achar graça nas coisas cotidianas, ver surpresa no que é óbvio, beleza no que a maioria acha feio, e acho essa uma bela virtude. E tanta grana assim, acho que pode acabar me deslumbrando o que não presta, abrindo portas que eu nem ligo que estejam fechadas. Pode acabar com a vida que eu vivo, tão confortável.
Tá começando a entrar um vento frio pela janela. O céu, a essa hora, tá começando a se encher de estrelas. Elas sempre foram a minhas maiores conselheiras. Acho que eu vou calçar meu tênis, colocar um casaco e ir andar um pouco pela rua, dar uma chegada na praia, escutar o que o mar tem pra me dizer, o que os transeuntes mudos me aconselham. Mas vou deixar o bilhete aqui em casa, trancar na gaveta da escrivaninha. Vai que algum filho da puta entra numa de me assaltar aí pela rua, e leva o bilhete do meu bolso? Vai saber...
Acho que esses meus gostos pra lá de habituais provêm da infância que eu tive. Dela guardo algumas lembranças, bem singelas, mas que são uma marca bem forte na minha personalidade. Às vezes eu tenho a impressão de que mesmo com o passar dos anos, e elas bem lá no fundo, são essas recordações o que de mais forte há em mim, e de mais fino no meu modo de encarar as coisas.
Lembro da tia Joana dizendo que o canto do sabiá era agourento, no quintal lá de casa. Da minha mãe xingando, quando queimava a mão na panela, ou conversando com a minha outra tia, pelo basculante da cozinha; discutindo o que ia acontecer na novela ou o penteado da dona Marluce. Recordo meu pai chegando tarde e me perguntando se eu já tinha jantado, despenteando meu cabelo, me chamando de sacana. Lembro de soltar pipa, jogar pião, e não saber muito bem amarrar os meus cadarços. Também me escondia no canto box na hora do banho, bem longe do chuveiro, matava formiga no quintal pra dar de comer à aranha e chutava o chão jogando bola. Além do mais, arrumava umas briguinhas na escola e roubava umas balas da cantina.
Hoje, eu sou muito disso tudo. Até com os cadarços ainda tenho uma relação de pouca intimidade. Além disso, não prezo muito pelas grandes coisas, e às vezes acho que até as quero longe de mim. Odeio complicações,discussões, citações. Quero pra mim simplicidade, cara lavada, cores neutras, sem disfarces. Relacionamentos sem grandes reviravoltas ou confusão. Minha vontade mesmo é de ver as coisas transcorrerem tal como elas acharem melhor, tal como elas queiram. Até uma complicação é menor se ocorre quando tinha de ser.
Depois de ser um aluno nota sete na escola, pelo menos na maioria das matérias, não ter conseguido passar no vestibular pra uma universisade pública, ter me formado em administração numa particular, com meu pai pagando pra mim, com grana suada, suada, agora eu trabalho num escritório, no centro da cidade, e moro sozinho num quarto e sala na Glória, no terceiro andar e com vsita pra parede do prédio vizinho. Pago um aluguel no preço de mercado, e ganho razoavelmente bem no meu serviço. Vem bastante gente aqui em casa. Trocar idéia, beber cerveja, jogar baralho, assistir um filme. Tenho alguns bons e velhos amigos, tipo o Rubinho e o Denis. Camaradas mesmo. Toda sexta é certo de a gente se ver, aprontar alguma por aí, beber todas, escutar música boa, cantar junto. Aliás, gosto muito de samba, e da sensação boa que ele dá. Os caras costumam falar de uns sentimentos que eu ainda não conheço. Aquela tristeza entranhada, por conta de alguma mulher que perdeu, aquela felicidade de arromba, no ritmo do churrasco no fundo do quintal e até daquelas birras e rivalidades entre escolas de samba. Eles cantam tudo isso, e eu nem entendo direito; mas gostar... gostar eu gosto! Gosto do ritmo, da atmosfera, e nem precisa ter por quê. Gosto também, de nessas saídas que a gente dá, conhecer gente, principalmente à noite, prioritariamente mulheres... hehe. Mamãe diz que eu não sou feio, e eu levo até certo jeito com as mulheres. Costumo me dar bem, sim. Difícil a noite que eu não fico com alguém. E sempre eu gosto dessa alguém. Não fico por ficar. Mas tem a Márcia. A Márcia é um caso meio antigo, a gente se vê bastante, eu gosto muito dela, mas acho que ela não é minha namorada. Na verdade a gente nunca entrou nesses pormenores. A gente se gosta, se aprecia, ri junto, sente tesão um pelo outro e acaba se vendo muito, e ficando junto, e pronto.
Tudo comigo é meio natural, espontâneo. Não ligo pra quase nada, não crio caso e pago pra não me incomodarem, não me tirarem do meu sossego; me deixarem quieto com minhas músicas, meus livros, meu sono, quando eu quero. Às vezes meu barato é de olhar pro alto, ver as estrelas brilhando no céu, ou então reparar no movimento das nuvens, numa tarde de sol; só isso. Será que eu posso? Noutras eu gosto de ver uns programas na tv, uns caras tampando na porrada, meu time jogando, uns sabichões discutindo asneiras, ou debatendo sobre algum disco do Gil, do Chico ou dos Mamonas. Sinto angústia quase toda terça, e quase todo dia lá pelas 2 e pouca da tarde, e nem sei por quê.
Agora, hoje, é domingo, 5 e 43 da tarde, e eu tô com o bilhete da Mega-sena na mão. Sabe de uma coisa? Eu ganhei. Mas não conta pra ninguém. Eu ganhei, e disso pode ter certeza. Já olhei, conferi e revisei esses benditos números muitas e muitas vezes, desde as 2 e tal, desde a hora da minha angústia. E, ao invés daquela felicidade sufocante que eu pensei que fosse sentir numa ocasião dessas, em vez daquela vontade de gritar que eu supunha que me tomaria, eu tô aqui sentado, sozinho e quieto, tomando o café frio que sobrou de de manhã. Porra, 35 milhões na minha mão! E agora, o que é que eu faço?
Eu sempre tive medo de endeusar alguma coisa. Endeusar alguma mulher, algum emprego, algum status. Nunca quis ser um merdinha que vive a vida tendo em vista algum objetivo rígido ou preso a algum dogma. Agora vem essa grana toda na minha mão, querendo se tornar o meu deus. Ligo pra alguém? Peço conselho? Minha mãe? Meu pai? A Márcia, que às vezes parece que me entende mais até que eu mesmo? Acho que não. A decisão é minha.
Eu acho que essa grana seria bem útil, na verdade. Se eu aplicasse ela, deixasse rendendo, talvez eu nunca mais precisasse trabalhar, iria viver a vida no bem bom, quem sabe tranquilão pra poder ver as coisas correrem, como eu sempre quis... Mas não! Porra, não! Alguma coisa aqui em mim diz que não. Diz que eu iria, assim, estar vivendo em função de alguma coisa, com um guia lá no altão, me prendendo e manipulando. Talvez essa minha vida de acordar, trabalhar e voltar pra casa. De beber, rir, me animar e voltar pra casa. De ir ao maraca, ganhar ou perder, e voltar pra casa, seja mais livre do que a que eu teria sendo milionário, não tendo obrigação nenhuma.
Tô numa dúvida fudida e não sei o que eu faço. Acho que eu vou dar esse bilhete premiado pro primeiro bebum que eu ver ali na esquina, e continuar vivendo a minha vida na minha, sem grande alardes. Imagine a felicidade do cara?! Ia ser bem legal! Mas... não, não. É meu! Tsc... eu não devia ter pego a droga do troco da conta de luz e ter feito esse jogo. Aí, agora, eu não estaria passando por esse aperto de ter que tomar uma decisão dessas. Meto ou não a mão nessa grana? Faço uma bolinha desse papel milionário, jogo no lixo e continuo na minha, na mesma? Eu não ligo de estar na mesma, minha vida é boa e, se eu não sou feliz o tempo todo, tenho sim uns bons e belos momentos de felicidade. Como eu já disse, me contento com pouco. Consigo achar graça nas coisas cotidianas, ver surpresa no que é óbvio, beleza no que a maioria acha feio, e acho essa uma bela virtude. E tanta grana assim, acho que pode acabar me deslumbrando o que não presta, abrindo portas que eu nem ligo que estejam fechadas. Pode acabar com a vida que eu vivo, tão confortável.
Tá começando a entrar um vento frio pela janela. O céu, a essa hora, tá começando a se encher de estrelas. Elas sempre foram a minhas maiores conselheiras. Acho que eu vou calçar meu tênis, colocar um casaco e ir andar um pouco pela rua, dar uma chegada na praia, escutar o que o mar tem pra me dizer, o que os transeuntes mudos me aconselham. Mas vou deixar o bilhete aqui em casa, trancar na gaveta da escrivaninha. Vai que algum filho da puta entra numa de me assaltar aí pela rua, e leva o bilhete do meu bolso? Vai saber...
sábado, 25 de julho de 2009
um homem. ele mesmo. um ser que é sempre o mesmo. sempre o mesmo corpo, mesma voz, mesmo jeito. mesmo nó no cadarço. enfurnado em si por natureza. há expansões, sobressaltos, há. mas sempre de si mesmo. cenário, horário. mudam. mas é sempre o mesmo dia aqui dentro. uma briga consigo. um alento, um sorriso, um vento. isso há. pensamentos, paixões, excelentes. encontros, papos, beijos. mas o homem é cascudo, duro, resiste. viver por aqui é sempre a tentativa de entender. tentativa vã? parece. aviso? não adianta, a luta já está perdida? a luta está sempre sendo lutada. brigada. tentativa de cobertura pro vazio, oco. tentativa de abertuta pro horizonte: azul. olha pro alto? a topada é consequência; o cavaco, a vergonha. é vida. e é sempre você mesmo, preso em si. há mudança? há. superficial? nem sempre. mas muda? muda mesmo? muda nada. se jogou no mar, esqueceu da vida, bebeu sal, respirou água. e aí?
4
nem vale a pena pensá-la
a vida é tanta,
mas cabe aqui na sala.
. .
esquece o mês
que vem,
hoje mesmo
é amanhã
pra tudo
que nos convém.
. .
quando
vens,
é quando
paz
quando
vais,
vazio
demais.
. .
vazio, oco...
toc toc
eco!
o que eu sentia
virou verso.
a vida é tanta,
mas cabe aqui na sala.
. .
esquece o mês
que vem,
hoje mesmo
é amanhã
pra tudo
que nos convém.
. .
quando
vens,
é quando
paz
quando
vais,
vazio
demais.
. .
vazio, oco...
toc toc
eco!
o que eu sentia
virou verso.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
demasiadamente
hoje estou
muito primeira
pessoa.
tudo é uma
consciência
irreflexiva.
de mim,
cada sombra
de mim,
cada luz ou
sobra.
gota, surto
flor fugida
do arbusto...
tudo meu.
não sou poupado
em nada;
já bate um medo!
soco murro ou farsa,
me protejam.
me sei fraco,
me sou cabreiro.
mas roubaram
minha senha.
o que me safava,
queimaram
com isqueiro,
e hoje sou
muito inteiro.
fedo forte,
percevejo.
sôo alto,
heavy metal.
apareço muito,
e vejo.
todas as plantas
e sonhos
a tampa da panela,
os passos da
mãe chegando,
o assalto na esquina
a paixão, essa menina,
me tomam.
sou parte em tudo,
não há reserva.
à dor da pele,
à flor da verve,
sou demais.
coisas do mundo,
peço uma trégua!
muito primeira
pessoa.
tudo é uma
consciência
irreflexiva.
de mim,
cada sombra
de mim,
cada luz ou
sobra.
gota, surto
flor fugida
do arbusto...
tudo meu.
não sou poupado
em nada;
já bate um medo!
soco murro ou farsa,
me protejam.
me sei fraco,
me sou cabreiro.
mas roubaram
minha senha.
o que me safava,
queimaram
com isqueiro,
e hoje sou
muito inteiro.
fedo forte,
percevejo.
sôo alto,
heavy metal.
apareço muito,
e vejo.
todas as plantas
e sonhos
a tampa da panela,
os passos da
mãe chegando,
o assalto na esquina
a paixão, essa menina,
me tomam.
sou parte em tudo,
não há reserva.
à dor da pele,
à flor da verve,
sou demais.
coisas do mundo,
peço uma trégua!
quinta-feira, 18 de junho de 2009
pronto.
a dor é minha,
o oco o soco e o refugo são meus
não vou compartilhar
nem sei lidar
sou eu.
um asno
um troco
um espasmo.
um bico
um tronco
um traste.
é tudo meu.
o sonho e o desvario
são consciência de ser eu.
o pouco que me sabia
rompeu.
mas não quero ajuda
no buraco
o frasco
quebrado
jazeu
e foda-se
o pranto abafado
é não-compartilhado.
o perfume derramado
é de sofrimento e
álcool.
e é tudo meu.
desce pela face,
se aventura nos
relevos, e nasce.
sou eu.
o oco o soco e o refugo são meus
não vou compartilhar
nem sei lidar
sou eu.
um asno
um troco
um espasmo.
um bico
um tronco
um traste.
é tudo meu.
o sonho e o desvario
são consciência de ser eu.
o pouco que me sabia
rompeu.
mas não quero ajuda
no buraco
o frasco
quebrado
jazeu
e foda-se
o pranto abafado
é não-compartilhado.
o perfume derramado
é de sofrimento e
álcool.
e é tudo meu.
desce pela face,
se aventura nos
relevos, e nasce.
sou eu.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
ajuntamentos
moça bonita,
devo-te essa fantasia,
e uma confissão:
tenho uma
coleção.
guardo comigo,
no fundo,
no fim,
no meu abismo,
num amontoado de
poeira, meus
feitios de vida.
montantes de restos,
num todo de acúmulos,
são refugos e sorrisos
sombras e sustos.
acumulo e pronto.
eis o meu chão.
guardo tudo.
meio escondido
meio sujo...
tudo semi-amador,
mal organizado,
amiúde.
largo num canto,
e é tudo que sou.
é meu protesto.
ser e ser
numa mescla.
esse mundo vulgar
que cerca e açoita,
passa corrido demais.
feito briga ou serra,
tudo tem pressa;
silêncios ou ais
se não acumulo musgos
amores rusgas pulgas.
cadarços, transtornos
sonhos ou filmes;
insetos livros
cds e volumes
papéis papéis
papéis papéis
papéis e sílabas
livres ou rimas
me sinto uma reta,
um risco sem fim,
realidade sem peças.
consciência de ser
o que sou
só sendo recôndito,
guardando bem fundo
meus amores no frasco
meus socos na cara
minhas dores à flor
minhas penúrias na cor
luxúrias, à parte...
sendo forte e covarde.
tranco e amo.
tenho uma coleção,
sem ela nem vivo,
mas se quiseres,
moça bonita,
te vendo,
em leves-breves
prestações.
devo-te essa fantasia,
e uma confissão:
tenho uma
coleção.
guardo comigo,
no fundo,
no fim,
no meu abismo,
num amontoado de
poeira, meus
feitios de vida.
montantes de restos,
num todo de acúmulos,
são refugos e sorrisos
sombras e sustos.
acumulo e pronto.
eis o meu chão.
guardo tudo.
meio escondido
meio sujo...
tudo semi-amador,
mal organizado,
amiúde.
largo num canto,
e é tudo que sou.
é meu protesto.
ser e ser
numa mescla.
esse mundo vulgar
que cerca e açoita,
passa corrido demais.
feito briga ou serra,
tudo tem pressa;
silêncios ou ais
se não acumulo musgos
amores rusgas pulgas.
cadarços, transtornos
sonhos ou filmes;
insetos livros
cds e volumes
papéis papéis
papéis papéis
papéis e sílabas
livres ou rimas
me sinto uma reta,
um risco sem fim,
realidade sem peças.
consciência de ser
o que sou
só sendo recôndito,
guardando bem fundo
meus amores no frasco
meus socos na cara
minhas dores à flor
minhas penúrias na cor
luxúrias, à parte...
sendo forte e covarde.
tranco e amo.
tenho uma coleção,
sem ela nem vivo,
mas se quiseres,
moça bonita,
te vendo,
em leves-breves
prestações.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
desajuste
tudo isso deve
servir
tem que
servir
pra alguma merda.
sentir, olhar
estar, viver...
e pra quê?
se apaixonar, beijar
cair, perder...
tem que ter!
fazer barba, comida
sentir calor, frio...
e aí?
beber, fazer festa
dançar, sorrir...
pra isso?
solidão, desespero
tédio, apego...
é sério isso aqui?
calçar tênis,
meia e camisa
depois tirar,
desvestir...
dormir, acordar
pra tudo de novo...
só rindo!
tanta ponte,
estrada...
eu, você,
circunlóquios
e essa gente chata.
e não tem
serventia?!
boca, nariz
braço e cabeça
fígado, rins
dedos e pernas
têm um fim?
na minha orelha,
vai... me diz!!
espero algum sentido,
pra além de simplesmente
estar aqui.
pra alguma merda
essa vida tem que
servir.
servir
tem que
servir
pra alguma merda.
sentir, olhar
estar, viver...
e pra quê?
se apaixonar, beijar
cair, perder...
tem que ter!
fazer barba, comida
sentir calor, frio...
e aí?
beber, fazer festa
dançar, sorrir...
pra isso?
solidão, desespero
tédio, apego...
é sério isso aqui?
calçar tênis,
meia e camisa
depois tirar,
desvestir...
dormir, acordar
pra tudo de novo...
só rindo!
tanta ponte,
estrada...
eu, você,
circunlóquios
e essa gente chata.
e não tem
serventia?!
boca, nariz
braço e cabeça
fígado, rins
dedos e pernas
têm um fim?
na minha orelha,
vai... me diz!!
espero algum sentido,
pra além de simplesmente
estar aqui.
pra alguma merda
essa vida tem que
servir.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
s.o.s
qualquer coisa
frase, verso
esquema.
qualquer força
descarga
remo, prensa.
do mais tosco
ao mais sublime.
o problema
é que
estou oco,
me deu cupim.
me bate,
sangra,
espreme;
me arruina.
beija, abraça
por favor,
me anime!
do jeito que
tudo anda
sem sentido...
sem cor,
sem dor,
sorriso.
do jeito que
de cada tombo
saio ileso,
do jeito que eu
ando a margem
de tudo
que queria;
desse jeito
morro firme.
cheio de sonhos
neutros,
e artrite
aos vinte.
qualquer coisa
frase, verso
esquema.
qualquer força
descarga
remo, prensa.
do mais tosco
ao mais sublime.
o problema
é que
estou oco,
me deu cupim.
me bate,
sangra,
espreme;
me arruina.
beija, abraça
por favor,
me anime!
do jeito que
tudo anda
sem sentido...
sem cor,
sem dor,
sorriso.
do jeito que
de cada tombo
saio ileso,
do jeito que eu
ando a margem
de tudo
que queria;
desse jeito
morro firme.
cheio de sonhos
neutros,
e artrite
aos vinte.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
sereno
bom mesmo é
sentir calma.
uma brisa no
peito
sorriso no
rosto
subtração de todos
os medos
bom mesmo é
estar tranquilo.
na rede
sossego
na cabeça
ar fresco
do corpo
um respiro
bom mesmo é
arroz, bife
e fritas.
olhos no
teto
uma moça
bonita
bom mesmo é
o sucinto.
a companhia das
pernas
o saber-se
bem-vindo
bom mesmo é
estar aqui.
sem grandes
alardes,
fogos de artifício
bom mesmo é
viver,
e não se
preocupar
com tudo
isso.
sentir calma.
uma brisa no
peito
sorriso no
rosto
subtração de todos
os medos
bom mesmo é
estar tranquilo.
na rede
sossego
na cabeça
ar fresco
do corpo
um respiro
bom mesmo é
arroz, bife
e fritas.
olhos no
teto
uma moça
bonita
bom mesmo é
o sucinto.
a companhia das
pernas
o saber-se
bem-vindo
bom mesmo é
estar aqui.
sem grandes
alardes,
fogos de artifício
bom mesmo é
viver,
e não se
preocupar
com tudo
isso.
sábado, 4 de abril de 2009
jaz
eu já contei
muitas vezes
a mesma história
já falei
tive
e repeli
mil versos
repetidos
rimei flor com lixo
cimento com cor
rimei rimas fáceis
senti pouco amor
agora tudo é
demais e
as sílabas
fracas
vou desistir...
escrever, parir...
!!!!
o resto me baste.
te espero ali...
muitas vezes
a mesma história
já falei
tive
e repeli
mil versos
repetidos
rimei flor com lixo
cimento com cor
rimei rimas fáceis
senti pouco amor
agora tudo é
demais e
as sílabas
fracas
vou desistir...
escrever, parir...
!!!!
o resto me baste.
te espero ali...
quarta-feira, 25 de março de 2009
um tudo muito confuso
chuva, chuva, chuva. galhos se esvoaçando, esmerilhando solos sonoros, raios num jogo de luzes, som heavy e tudo muito, muito molhado. cérebro, orelha, meia, joelho. dedos enrugados. mas o olho estava seco e o tempo não passa.
penso demais, sinto demais, tudo num peso muito desproporcional.
litros e litros d'água. ônibus passando, ondas de gente e de foras. música retumbante, fila pra atravessar.
quepe, uniforme. fila de índios, ciborgues.
mais um nesse lugar sobrevivendo à uma contenda de cartas marcadas onde a repetição é o porto seguro.
sofreguidão, melancolia.
o cara fora da fila pro cara da fila:
- tá na fila?
conversa paralela:
- já parou pra pensar no tempo?
- é, estranha essa chuva. não para de continuar.
- não! o tempo! já viu como tudo se repete?
a fila era longa e as horas intermináveis. o tédio abafava as gotas geladas da chuva, e o suor jorrava, salgado e intenso, no rosto de cada infeliz de cueca suada e ranço de mofo, que bafejavam o ambiente já muito repulsivo. tudo isso e o trânsito atravancado, e a fila pra atravessar cada vez maior, e as conversas, que brotavam reféns do fastio, cada vez mais surreais e desencontradas.
- repetida a lona azul, ou a manta furada do céu. a cor muda da flor, a onda. pensamentos, angústias, inseguranças; alegrias, sorrisos e rasgos de aparente novidade.
um zumbi atravessa o tal caminho meio avariado e sem se dar conta do sinal aberto. trajava um vestido de estampa alegre, exalava um ar fresco, uma singela brevidade dos gestos e uns olhos muito fundos. a poesia.
celular toca, e a fila sem fim como que num gesto adestrado atende. alô em uníssono. silêncio.
trovoada, chacoalho de folhas, lama na canela, boeiro entupido, ratos boiando. do celular atendido soa o som de um violão.
o outro, pro um:
- consciente dessa palidez, ando enjoado e descrente das sempre exigentes e repetidas letras do alfabeto. se vivo e penso e sinto sempre e sempre tudo de novo, e me perco absorto num desfluxo contínuo, me vejo mentiroso rimando as mesmas e mesmas letras, maquiadas numa variação temática que já se me adianta mentirosa e maliciosa. tosco e ogro às forço para um caminho que elas não querem seguir. e gritam e chiam e uivam de desalento na ponta do meu lápis desgovernado.
passa um índio pedindo silêncio, organizando a fila de ciborgues que espera para atravessar. agora o trânsito é de flores amarelas, e ninguém se dispõe a lançar-se. as flores amarelas são tantas, roncam o motor tão singelas, que a coragem fica guardada no fundo do peito, e os olhos secos se contentam em observar o trânsito molhado daqueles seres iluminados.
- o que mantém minha gota de esperança escorrendo é a consciência de que a poesia conseguiu atravessar. não se restringiu a ordem dos índios, nem teve medo do trânsito e do sinal. muito menos teve medo do amontoado de letras maliciosas que buscam ritmo em sílaba. a poesia manteve os pés na rua, subiu ao céu, flutuou nas nuvens e viu a sofrida repetição bem fundo e no âmago, enquanto espreitava o trânsito de cima.
- das coisas há sempre um ranço e um sopro dela.
alguém ligou a tv! a fila se anima, se vira. todo mundo quer assistir!
um homenzinho careca, tísico e pateta discorre sobre sabe-se lá o que. mas tem uma oratória tão visceral, um ritmo de fala tão astuto e, principalmente, um brilho tão molhado nos olhos, que toma a atenção do amontoado de ciborgues, de índios, de quepes e até da chuva, que estia um bocado devido a audiência que certas gotinhas desobedientes prestam para a tv.
- se os textos me traem e espalham repetidas e estapafúrdias abobrinhas já antes expurgadas, meu olhar, meu sentimento, minha verve se mantém pulsante. mesmo consciente do tudo igual, me apego a potência de novidade de uma criação, e a excursão trescloucada pelo caminho velho conhecido, já faço, sim, avariado, mas contente e me sentindo sincero olhando tanto o farfalhar das folhas quanto a cerveja derramada no chão.
um rapazote levanta o dedo na fila. um índio olha. o rapazote ensimesmado. o índio aborrecido. o rapazote encara. o índio, sabe-se lá porque, permite.
pergunta-se: mas será que alguém ainda cria alguma coisa realmente nova?
o homenzinho, depois de um acesso de tosse e expurgação de um belo naco de catarro e sangue, responde; lá da tv:
- eu digo que isso pouco importa. importa de verdade o que acontece aqui dentro quando lá de fora a luz da poesia brota de um tijolo, de uma barata, de uma flor, de um sorriso, de um gesto, ou de um rato. e aí eu me sinto bem, só por ter sentido. se daqui a pouco esse algo já fugiu, se o verso cantado, que parecia concreto, depois de umas e outras já se dissipou, não faz mal. valeu tê-lo sentido como um rompante, um desvario passageiro. daí surge minha claridade e eu me seguro, mesmo que seja no gasto.
parece que ninguém ali entendeu. a chuva engrossa, aperta. cai um raio na tv. o som é cada vez mais pesado. o vento fortíssimo quebra o galho de uma árvore, que vai cair justamente no meio da rua. parece que agora vai dar pra atravessar. mais um alvoroço na fila. burburinho. agora a repetição acaba! uma novidade!
- a repetição não pode ser tão má assim. essa ladainha de vida triste ou repetida, de estúpidas contendas com um interior melancólico é pobre e mesquinha demais. cheira a chororô de neném mal alimentado. se tudo se repete, que se repita. valha-me regra!!!
ei! quem disse isso?!!
parece que o som do violão que saía do celular cessara, e o instrumentista resolveu falar em vez de tocar.
- todo mundo veio parar aqui sem querer... eu vim parar aqui sem querer, mesmo. agora já era. devia agradecer por sentir demais. agora eu que me vire com essa sofreguidão, essa melancolia que se alojou por aqui. esse sempre mesmo sempre é vômito de bobeiragens, sufocos e ilusões vãs. a vida é assim. às vezes cheia de subterfúgios, de insinuações de ineditismo que irritam pra quem já antevê sua malícia e mentira... mas, e daí? que se aproveitem as insinuações, os flertes fugidios e as promessas mentirosas. que a esperança sirva de acalento e foda-se. chega de em regurgitações infantis atestar fraqueza e desesperança, desespero bobão, de quem sente de mais o que devia ser de menos. já notei que não adianta fugir, que em mim cada baque bobo traz comoções estúpidas de tão grandes. que a cabeça pesa e baixa frente a mais inocente e mínima porrada. mas então que isso crie, que viva em forma de qualquer coisa desentranhada das vísceras do mundo; que é repetido, re-repetido, mas é tudo que se nos oferece.
vaias! vaias! vaias! que babaca! repetição é o caralho! repetição é uma merda! e foda-se você! ninguém quer saber da tua vida, seu viadinho, artistazinho de merda!
um mais indignado:
- tu fala isso porque não é tu quem tá aqui tomando essa chuva repetida, esperando o trânsito repetido dar uma trégua, numa fila cheia de pessoas repetidas, pra poder atravessar. tá é aí do outro lado do telefone, e deve estar sequinho. é um belo de um filho da puta!
todo mundo pra cima do dono do telefone! esmurros e murros. chutes e pontapés. índios, quepes, ciborgues de olhos secos e roupas molhadas repetindo o eco das porradas.
o trânsito cessado pela quebra do galho era dessa vez de andorinhas e baratas. as andorinhas caminhavam, queriam sentir o cheiro do asfalto. e as baratas iam alto num vôo celestial.
enquanto a briga se espalhava e todo mundo esmurrava todo mundo sem saber porquê, o protagonista da história decidiu seguir o exemplo do zumbi e atravessar a rua. o itinerário, percorrido sem percalços ou problemas, levou a um outro lado muito parecido com o de cá. de qualquer forma o protagonista da história sentiu um algo novo e, definitivamente, bom. a chuva não havia cessado, a água não havia baixado e muito menos os ratos parado de boiar pela correnteza de esgoto; mas o protagonista da história se sentia bem do outro lado da rua. como pensava e sentia demais, tudo no tal peso desproporcional, lhe veio a mente uma torrente de lembranças desencontradas, uma mistura de situações sonhadas, imaginadas, vividas ou repensadas. lembrou do violão que ele tocou, do discurso que fez, de uma sequência de rostos iguais que eram ele e mais alguém, e de uns poucos, muito poucos, assovios.
- acho que eu já estive aqui!
aí uma flor amarela caiu, uma barata voou, uma andorinha parou, um carro levantou o farol, o tísico da tv orou, o cara do celular resolveu tocar, todo mundo parou de brigar do outro lado da rua, a chuva aumentou, um raio ribombou e a população toda, de todos os lados da rua, olhou pro protagonista da história enquanto o fogo interno da inspiração tomava conta do seu peito, seu olho brilhava, já molhado, e seu corpo secava.
a sensação boa e nova! o fim da repetição da fila, da chuva, do trânsito! do outro lado da rua tinha uma marquise, um lápis e um papel, e o protagosnista da história estava pensando em alguma coisa. talvez nova, talvez interessante, talvez genial. também podia estar pensando que passara a hora de fazer a barba, ou que faltava o miojo pra janta. e aquela planta a regar, e aquele livro pra ler. pois é... ele anotou.
pouco importa? nem todo protagonista da história é cheio das novidades. essa história, tal de vida; esse amontoado de encontros e conversas pode ser ótimo, mas às vezes bem que enche o saco.
ps: um dia parou de chover por lá, fez sol, mas ninguém atravessou a rua. ficaram com receio do trânsito, que agora era de idéias azuis, verdes, amarelas, cheirosas a mofo e chiclete, com uns olhos muito grandes e um jeito de andar de quem carrega alguma coisa.
penso demais, sinto demais, tudo num peso muito desproporcional.
litros e litros d'água. ônibus passando, ondas de gente e de foras. música retumbante, fila pra atravessar.
quepe, uniforme. fila de índios, ciborgues.
mais um nesse lugar sobrevivendo à uma contenda de cartas marcadas onde a repetição é o porto seguro.
sofreguidão, melancolia.
o cara fora da fila pro cara da fila:
- tá na fila?
conversa paralela:
- já parou pra pensar no tempo?
- é, estranha essa chuva. não para de continuar.
- não! o tempo! já viu como tudo se repete?
a fila era longa e as horas intermináveis. o tédio abafava as gotas geladas da chuva, e o suor jorrava, salgado e intenso, no rosto de cada infeliz de cueca suada e ranço de mofo, que bafejavam o ambiente já muito repulsivo. tudo isso e o trânsito atravancado, e a fila pra atravessar cada vez maior, e as conversas, que brotavam reféns do fastio, cada vez mais surreais e desencontradas.
- repetida a lona azul, ou a manta furada do céu. a cor muda da flor, a onda. pensamentos, angústias, inseguranças; alegrias, sorrisos e rasgos de aparente novidade.
um zumbi atravessa o tal caminho meio avariado e sem se dar conta do sinal aberto. trajava um vestido de estampa alegre, exalava um ar fresco, uma singela brevidade dos gestos e uns olhos muito fundos. a poesia.
celular toca, e a fila sem fim como que num gesto adestrado atende. alô em uníssono. silêncio.
trovoada, chacoalho de folhas, lama na canela, boeiro entupido, ratos boiando. do celular atendido soa o som de um violão.
o outro, pro um:
- consciente dessa palidez, ando enjoado e descrente das sempre exigentes e repetidas letras do alfabeto. se vivo e penso e sinto sempre e sempre tudo de novo, e me perco absorto num desfluxo contínuo, me vejo mentiroso rimando as mesmas e mesmas letras, maquiadas numa variação temática que já se me adianta mentirosa e maliciosa. tosco e ogro às forço para um caminho que elas não querem seguir. e gritam e chiam e uivam de desalento na ponta do meu lápis desgovernado.
passa um índio pedindo silêncio, organizando a fila de ciborgues que espera para atravessar. agora o trânsito é de flores amarelas, e ninguém se dispõe a lançar-se. as flores amarelas são tantas, roncam o motor tão singelas, que a coragem fica guardada no fundo do peito, e os olhos secos se contentam em observar o trânsito molhado daqueles seres iluminados.
- o que mantém minha gota de esperança escorrendo é a consciência de que a poesia conseguiu atravessar. não se restringiu a ordem dos índios, nem teve medo do trânsito e do sinal. muito menos teve medo do amontoado de letras maliciosas que buscam ritmo em sílaba. a poesia manteve os pés na rua, subiu ao céu, flutuou nas nuvens e viu a sofrida repetição bem fundo e no âmago, enquanto espreitava o trânsito de cima.
- das coisas há sempre um ranço e um sopro dela.
alguém ligou a tv! a fila se anima, se vira. todo mundo quer assistir!
um homenzinho careca, tísico e pateta discorre sobre sabe-se lá o que. mas tem uma oratória tão visceral, um ritmo de fala tão astuto e, principalmente, um brilho tão molhado nos olhos, que toma a atenção do amontoado de ciborgues, de índios, de quepes e até da chuva, que estia um bocado devido a audiência que certas gotinhas desobedientes prestam para a tv.
- se os textos me traem e espalham repetidas e estapafúrdias abobrinhas já antes expurgadas, meu olhar, meu sentimento, minha verve se mantém pulsante. mesmo consciente do tudo igual, me apego a potência de novidade de uma criação, e a excursão trescloucada pelo caminho velho conhecido, já faço, sim, avariado, mas contente e me sentindo sincero olhando tanto o farfalhar das folhas quanto a cerveja derramada no chão.
um rapazote levanta o dedo na fila. um índio olha. o rapazote ensimesmado. o índio aborrecido. o rapazote encara. o índio, sabe-se lá porque, permite.
pergunta-se: mas será que alguém ainda cria alguma coisa realmente nova?
o homenzinho, depois de um acesso de tosse e expurgação de um belo naco de catarro e sangue, responde; lá da tv:
- eu digo que isso pouco importa. importa de verdade o que acontece aqui dentro quando lá de fora a luz da poesia brota de um tijolo, de uma barata, de uma flor, de um sorriso, de um gesto, ou de um rato. e aí eu me sinto bem, só por ter sentido. se daqui a pouco esse algo já fugiu, se o verso cantado, que parecia concreto, depois de umas e outras já se dissipou, não faz mal. valeu tê-lo sentido como um rompante, um desvario passageiro. daí surge minha claridade e eu me seguro, mesmo que seja no gasto.
parece que ninguém ali entendeu. a chuva engrossa, aperta. cai um raio na tv. o som é cada vez mais pesado. o vento fortíssimo quebra o galho de uma árvore, que vai cair justamente no meio da rua. parece que agora vai dar pra atravessar. mais um alvoroço na fila. burburinho. agora a repetição acaba! uma novidade!
- a repetição não pode ser tão má assim. essa ladainha de vida triste ou repetida, de estúpidas contendas com um interior melancólico é pobre e mesquinha demais. cheira a chororô de neném mal alimentado. se tudo se repete, que se repita. valha-me regra!!!
ei! quem disse isso?!!
parece que o som do violão que saía do celular cessara, e o instrumentista resolveu falar em vez de tocar.
- todo mundo veio parar aqui sem querer... eu vim parar aqui sem querer, mesmo. agora já era. devia agradecer por sentir demais. agora eu que me vire com essa sofreguidão, essa melancolia que se alojou por aqui. esse sempre mesmo sempre é vômito de bobeiragens, sufocos e ilusões vãs. a vida é assim. às vezes cheia de subterfúgios, de insinuações de ineditismo que irritam pra quem já antevê sua malícia e mentira... mas, e daí? que se aproveitem as insinuações, os flertes fugidios e as promessas mentirosas. que a esperança sirva de acalento e foda-se. chega de em regurgitações infantis atestar fraqueza e desesperança, desespero bobão, de quem sente de mais o que devia ser de menos. já notei que não adianta fugir, que em mim cada baque bobo traz comoções estúpidas de tão grandes. que a cabeça pesa e baixa frente a mais inocente e mínima porrada. mas então que isso crie, que viva em forma de qualquer coisa desentranhada das vísceras do mundo; que é repetido, re-repetido, mas é tudo que se nos oferece.
vaias! vaias! vaias! que babaca! repetição é o caralho! repetição é uma merda! e foda-se você! ninguém quer saber da tua vida, seu viadinho, artistazinho de merda!
um mais indignado:
- tu fala isso porque não é tu quem tá aqui tomando essa chuva repetida, esperando o trânsito repetido dar uma trégua, numa fila cheia de pessoas repetidas, pra poder atravessar. tá é aí do outro lado do telefone, e deve estar sequinho. é um belo de um filho da puta!
todo mundo pra cima do dono do telefone! esmurros e murros. chutes e pontapés. índios, quepes, ciborgues de olhos secos e roupas molhadas repetindo o eco das porradas.
o trânsito cessado pela quebra do galho era dessa vez de andorinhas e baratas. as andorinhas caminhavam, queriam sentir o cheiro do asfalto. e as baratas iam alto num vôo celestial.
enquanto a briga se espalhava e todo mundo esmurrava todo mundo sem saber porquê, o protagonista da história decidiu seguir o exemplo do zumbi e atravessar a rua. o itinerário, percorrido sem percalços ou problemas, levou a um outro lado muito parecido com o de cá. de qualquer forma o protagonista da história sentiu um algo novo e, definitivamente, bom. a chuva não havia cessado, a água não havia baixado e muito menos os ratos parado de boiar pela correnteza de esgoto; mas o protagonista da história se sentia bem do outro lado da rua. como pensava e sentia demais, tudo no tal peso desproporcional, lhe veio a mente uma torrente de lembranças desencontradas, uma mistura de situações sonhadas, imaginadas, vividas ou repensadas. lembrou do violão que ele tocou, do discurso que fez, de uma sequência de rostos iguais que eram ele e mais alguém, e de uns poucos, muito poucos, assovios.
- acho que eu já estive aqui!
aí uma flor amarela caiu, uma barata voou, uma andorinha parou, um carro levantou o farol, o tísico da tv orou, o cara do celular resolveu tocar, todo mundo parou de brigar do outro lado da rua, a chuva aumentou, um raio ribombou e a população toda, de todos os lados da rua, olhou pro protagonista da história enquanto o fogo interno da inspiração tomava conta do seu peito, seu olho brilhava, já molhado, e seu corpo secava.
a sensação boa e nova! o fim da repetição da fila, da chuva, do trânsito! do outro lado da rua tinha uma marquise, um lápis e um papel, e o protagosnista da história estava pensando em alguma coisa. talvez nova, talvez interessante, talvez genial. também podia estar pensando que passara a hora de fazer a barba, ou que faltava o miojo pra janta. e aquela planta a regar, e aquele livro pra ler. pois é... ele anotou.
pouco importa? nem todo protagonista da história é cheio das novidades. essa história, tal de vida; esse amontoado de encontros e conversas pode ser ótimo, mas às vezes bem que enche o saco.
ps: um dia parou de chover por lá, fez sol, mas ninguém atravessou a rua. ficaram com receio do trânsito, que agora era de idéias azuis, verdes, amarelas, cheirosas a mofo e chiclete, com uns olhos muito grandes e um jeito de andar de quem carrega alguma coisa.
domingo, 8 de março de 2009
sabe, seu rato...
quem dera eu
morar ao
teu lado.
ser teu
vizinho
seria um
barato.
esse teu pêlo,
cinza-brilhoso.
esse dentinho,
que deixa pintoso.
esse teu charme,
pouco ortodoxo...
eu te invejo!
vive só,
simples
e reles.
sem prestar
satisfações
a padres,
patrões
ou mulheres.
à sorte
dos entulhos,
na correnteza
dos esgotos
leva vida
bela...
e quem diria?
campestre!
um dia
me mudo
pr'esse
seu mundo,
mala e cuia!
vizinho seremos,
meu ídolo
imundo!
esse brilho
nos teus
olhos
profundos
eu sei que
não mente.
tenho quase
a certeza de
que você me
entende.
quem dera eu
morar ao
teu lado.
ser teu
vizinho
seria um
barato.
esse teu pêlo,
cinza-brilhoso.
esse dentinho,
que deixa pintoso.
esse teu charme,
pouco ortodoxo...
eu te invejo!
vive só,
simples
e reles.
sem prestar
satisfações
a padres,
patrões
ou mulheres.
à sorte
dos entulhos,
na correnteza
dos esgotos
leva vida
bela...
e quem diria?
campestre!
um dia
me mudo
pr'esse
seu mundo,
mala e cuia!
vizinho seremos,
meu ídolo
imundo!
esse brilho
nos teus
olhos
profundos
eu sei que
não mente.
tenho quase
a certeza de
que você me
entende.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
sirenes gritando, vibrando
batuques e rebatuques
louvando meu quebranto
som de vozes, de gestos
ritos fugazes, rugas na cara
risos loucos, ar pouco, sufoco.
amores passados, futuros
caminhos lunares, obscuros
sinais todos fechados.
pessoas atravessando, corridas
formigas subindo,
moscas e moscas zunindo
ratos e focas...
passarinhos!
ressaca, mais água
mar mar mar mar
mal e bem
malamar
cisco no olho
vento soprando
areia areia areia
atolo
lama lama lama
ela me olhando
meu corpo pedindo socorro
buracos no chão
folhas, fitas, figos
grunhidos, lamentações
soluços, amigos
arroz, ervilha
copo vazio
asco, dor, frio
parece que foi ontem
que é hoje
que será sempre
socorram-me vivo!
algo me espreita
promessas, sorrisos
a maré vai baixando
um palhaço vem vindo
o simples
o reduzido
o gênio bem sabe
que nada é mais
que tudo isso.
batuques e rebatuques
louvando meu quebranto
som de vozes, de gestos
ritos fugazes, rugas na cara
risos loucos, ar pouco, sufoco.
amores passados, futuros
caminhos lunares, obscuros
sinais todos fechados.
pessoas atravessando, corridas
formigas subindo,
moscas e moscas zunindo
ratos e focas...
passarinhos!
ressaca, mais água
mar mar mar mar
mal e bem
malamar
cisco no olho
vento soprando
areia areia areia
atolo
lama lama lama
ela me olhando
meu corpo pedindo socorro
buracos no chão
folhas, fitas, figos
grunhidos, lamentações
soluços, amigos
arroz, ervilha
copo vazio
asco, dor, frio
parece que foi ontem
que é hoje
que será sempre
socorram-me vivo!
algo me espreita
promessas, sorrisos
a maré vai baixando
um palhaço vem vindo
o simples
o reduzido
o gênio bem sabe
que nada é mais
que tudo isso.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
incógnita
no meu mundo de sonho,
lá onde faltam
as horas,
também faltam
as escolhas.
lá onde a vida
é sem aurora
não preciso
do relógio.
lá onde tudo
rodopia
sinto coragem
na alegria.
e eu mergulho
nesse mundo
de delírio.
sonho doce e
respiro suaves
amavios,
flutuo e pronto
saboreio verdes
desvarios.
mas me abato e sofro
quando acordo
em meio a socos,
pontapés e chutes.
saio do sonho e
mergulho no
meu punhado
de clichês,
os "senões"
e os "porquês".
fica logo
tudo claro,
e eu me sinto
amarrado.
aí, só uma coisa
me resta:
uma presença.
o sólido em
contraposição
à crença.
o físico contra
o abstrato.
o rasgo contra
o emendo,
a rachadura
no cimento.
ela é meu
sonho concreto,
minha dor e
meu contento.
a essência da minha
felicidade em
puro contrasenso.
então me deixo,
vou assim mesmo...
acendo a luz,
e me rendo.
só quando a vejo
que me entendo.
lá onde faltam
as horas,
também faltam
as escolhas.
lá onde a vida
é sem aurora
não preciso
do relógio.
lá onde tudo
rodopia
sinto coragem
na alegria.
e eu mergulho
nesse mundo
de delírio.
sonho doce e
respiro suaves
amavios,
flutuo e pronto
saboreio verdes
desvarios.
mas me abato e sofro
quando acordo
em meio a socos,
pontapés e chutes.
saio do sonho e
mergulho no
meu punhado
de clichês,
os "senões"
e os "porquês".
fica logo
tudo claro,
e eu me sinto
amarrado.
aí, só uma coisa
me resta:
uma presença.
o sólido em
contraposição
à crença.
o físico contra
o abstrato.
o rasgo contra
o emendo,
a rachadura
no cimento.
ela é meu
sonho concreto,
minha dor e
meu contento.
a essência da minha
felicidade em
puro contrasenso.
então me deixo,
vou assim mesmo...
acendo a luz,
e me rendo.
só quando a vejo
que me entendo.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
festival de curtas
de onde vem?
e tudo é questão
de sentir
não só ver
tocar saborear
cheirar ouvir
é questão de
se soltar
angústia solidão
amor ilusão
devir
sentir à rasgos
toscos
e sobrevôos
loucos
a inspiração
que transita
por aí
* * *
P&B
as nuvens que
vão alto,
feito sonho
em mente vã
passam do raro
ao balangandã,
sem perder o
privilégio.
esquecem homero,
o certo,
rompem o quinhão
e o correto
e viram amuleto
de sorte certa.
quando vou lá
o arco-íris
eu vejo de perto.
* * *
palhaçada
de repente acordei
rimando fácil
com as palavras
me puxando pelo braço
pedindo canal
ocupando espaços
pelas linhas do papel
fazendo estardalhaço
me deixando assustado
com pinta de palhaço
* * *
impresença
não queira saber de mim.
meu poema não tem
eu,
muito menos lírico,
ele é um puro se erigir.
vem não sei de onde,
de trem de carro de bonde
e se aloja por aqui.
nessa página triste-pálida
ele sabe o que fazer
é puro risco raso
é sujo fresco impávido
em cem mil faces a diluir-se.
eu?
não valho nada.
só, enquanto escrevo,
dou-lhe pernas,
e ele se manda por aí.
e tudo é questão
de sentir
não só ver
tocar saborear
cheirar ouvir
é questão de
se soltar
angústia solidão
amor ilusão
devir
sentir à rasgos
toscos
e sobrevôos
loucos
a inspiração
que transita
por aí
* * *
P&B
as nuvens que
vão alto,
feito sonho
em mente vã
passam do raro
ao balangandã,
sem perder o
privilégio.
esquecem homero,
o certo,
rompem o quinhão
e o correto
e viram amuleto
de sorte certa.
quando vou lá
o arco-íris
eu vejo de perto.
* * *
palhaçada
de repente acordei
rimando fácil
com as palavras
me puxando pelo braço
pedindo canal
ocupando espaços
pelas linhas do papel
fazendo estardalhaço
me deixando assustado
com pinta de palhaço
* * *
impresença
não queira saber de mim.
meu poema não tem
eu,
muito menos lírico,
ele é um puro se erigir.
vem não sei de onde,
de trem de carro de bonde
e se aloja por aqui.
nessa página triste-pálida
ele sabe o que fazer
é puro risco raso
é sujo fresco impávido
em cem mil faces a diluir-se.
eu?
não valho nada.
só, enquanto escrevo,
dou-lhe pernas,
e ele se manda por aí.
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