sábado, 10 de dezembro de 2011

aspas

não sou o silêncio
que quer dizer palavras
ou bater palmas
pras performances do acaso

sou um rio de palavras
peço um minuto de silêncios
pausas valsas calmas penadas
e um pouco de esquecimento

apenas um e eu posso deixar o espaço
e estrelar este teatro
que se chama tempo

(Leminski)

domingo, 3 de julho de 2011

amuado,
é o que eu sou
no fim
e em último caso.
mudo, bolado
quieto no meu canto
eu não encho teu saco.
não me cutuca, não mexe
me deixa
não quero saber dos teus sentimentos
nem das tuas angústias
tô mal-humorado pra caralho
falar comigo é pedir pra levar patada
amuado, agastado, melindrado
sem motivo, por simples prazer de criar caso
se mantém distante
fica de lado
tô cheio de amargura e dúvida no fundo do meu peito
me deixa calado

segunda-feira, 6 de junho de 2011

aspas

Convite Triste


Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira,
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber, apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um umbigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.


(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

do baú

não quero ficar falando de algo distante e intocável, dispenso assuntos frios. só quero o que me diga respeito, aqui e agora, vou em busca de um texto que pulse e que vibre. não quero metafísica, alma nem além. vou ficando por aqui, na superfície desse asfalto, no meio do engarrafamento, ou sentado no chão olhando a lua, que também me convém. e o que me dá é uma vontade imatura de pensar tudo que cerca, o de fora, e tudo que eu sinto, o de dentro. questionar esse abusurdo tem o poder de deixar minha alma em paz. se eu pudesse, abraçaria tudo, pra depois escolher o melhor, e viver de certezas. natural e disposto tento enfrentar as aflições, tateante apalpo minhas próprias dores. também um tanto covarde, trago em mim um ranso de indecisão. mas enfrentar é possível. enfrentar de peito aberto é natural, é necessário e possível. posto isso, sigo, nessa tarefa doce e madrasta que é viver. e vou tranquilo...

sexta-feira, 4 de março de 2011

preguiça

vivo calado no meu canto
sem gastar poesia
fico quieto e observo
enquanto você gasta energia
você corre prum lado e pro outro
cheia de tarefas a realizar
e eu na rede me contento
em escutar as gotas do sereno
só vou me fortalecendo
e você, pra lá e pra cá,
vai desvanecendo
entrementes eu cresço
até que um dia explodo
!
já que em mim não caibo
viro gotas de chuvisco
cheias dum brilho verde
e de uma melancolia que não coube em si mesma...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

combate

a gente não sabe nem quem a gente é
não conhece ao menos a própria cara
em cada espelho que me olho
surge um contorno falho
um camarada que eu nunca vi na vida
vem e me encara
cada reflexo que de mim se faz
depende da luz, da hora, do dia
dependendo do que a gente sente
muda a feição, a simetria

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

de verão

trovão, raio
cobre o espelho, cuidado com o metal
vai vestir uma camisa
esse vento assim tão forte, tão de repente
é mal agouro
enterro de gente ruim
o chão tá frio, calça um chinelo
sai de baixo da árvore, atrai raio
tira tudo da tomada
tv, geladeira, rádio
desliga o telefone
e a goteira? que diabo!
pega o balde que isso parece uma torneira
agora sim,
acho que chega
bora, cambada, lá pra fora
sentar na varanda
olhar essa chuva,
que beleza!

domingo, 2 de janeiro de 2011

do baque

eu vou surfar nas nuvens
e vencer o desespero
beber água
chá de maçã verde
e ficar tranquilo
respirar bem devagar
viver de amor
e comer bastante fruta
sentar em meia-lótus
sacar o sol
e manter meu passo firme
seguindo uma flosofia zen
meu barato agora
é ter zelo
de agora em diante
cuido do corpo
feito filho.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

meu pro-jeto
não é pro
é amador
daqueles que só se fazem
se for com amor
daqueles que valem a pena
o processo
e padecem
de objetivo final

domingo, 28 de novembro de 2010

eu queria dizer tudo de mais feio
na sua cara
queria te mandar tomar no cu, se foder
e ir pro caralho
assim, do nada.
dizer que pouco me importa o que tu sente
o que guarda esse teu coração de bosta
minha natureza é feia, suja e incomodaria
se não fossem essas convenções
que me obrigam a olhar pra tua cara
sorrir e dizer bom dia.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

formiguinha que carrega tanto peso
e que quando encontra a amiguinha
mal pára, e só troca um alô de leve
faz o seguinte: larga esse torrão
de açúcar num canto,
pára e dá um abraço na parceira
a vida é curta
não corre tanto
chega de desespero
reúne tua galera
na esquina do formigueiro
e manda descer umas brejas!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

receita de calmante

presta atenção
repara
concentra
enquanto as idéias rebentam na cabeça
e o tempo voa sem tempo
em ti habita um movimento tranquilo:
você respira.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

pensei um verso
escrevi
bobo, fraco, de menos
apareceu
tomou conta da linha
em vão
dizer, não disse nada
só ficou por ali
ocupando espaço

quarta-feira, 23 de junho de 2010

anestésico

eu não sofro
nem sinto dor
não enxergo problema em quase nada
a única coisa que eu sinto
é meu corpo
sede, frio e vontade de ir embora
sempre com sono
não sei de datas, aniversários
meu problema
é sempre chegar atrasado
se eu sinto alguma dor
tem erro no meu corpo
uma noite mal dormida
ou um mal jeito no ombro
a essas ondas de dor na alma
nunca fui apresentado
minha existência é muito calma
vivo tranquilo
olho pra mim e tudo em volta
e não quero ver mistério
já que tudo está na cara
levo a vida leve

terça-feira, 8 de junho de 2010

ao que de mim sai
agradeço
é sempre um peso expelido
uma variz, um coágulo
que explode num espirro
o dedo buscando o vômito
o olho de um furúnculo
que é espremido
daí
um buraco raso sempre resta:
espaço que se abre
e espera ser vivido.

sábado, 29 de maio de 2010

se liga, cara pálida

minha sensibilidade estética
é ogra e mal-amada
gosta de agressividade
tiro chute voadora
barulho por nada
minha sensibilidade estética
é chucra e violenta
não vê a menor graça
na sua pintura caiada.

domingo, 23 de maio de 2010

cadeia de acontecimentos
sem mais nem menos
eu queria que você me dissesse alguma coisa
fosse mais clara, aberta
eu queria de ti
várias certezas
saber o que vai ser do futuro
e se isso que eu fiz
foi a coisa certa
cadeia que vai moldando meus movimentos
só noto de ti uns pequenos relances
explicação? quem dera
faço tudo o que faço no escuro
se eu não contasse com o acaso
se eu não acreditasse na calma e no jeito
estava frito
viveria de faca enfiada no peito
cadeia covarde e misteriosa
eu sei que tudo está na cara
e não vejo a hora de enxergar
nessa montoeira de gestos e palavras
é que eu me travo.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

pensamento sujo

passar a limpo
pra quê?
deixa tudo assim zoneado
as palavras todas se confundindo
a tosquice em cada ponto vírgula
erro de português maculado de rabisco
as idéias conversando entre si
deixa tudo assim
bololô zombaria bem tosco
na minha cabeça

quinta-feira, 29 de abril de 2010

em casa tranquilo é que saem algumas coisas
um assobio sem ser, um jeito novo de dar peteleco...
em casa tranquilo
é que de tanto eu pensar
às vezes as letras enjoam e pulam pra fora
de tanto eu fazer nada
acabam tomando uma forma
em casa sem ser
eu dou peteleco no vento
sinto tédio
e vontade de beber.
só às vezes é que me salvam as letras

sexta-feira, 9 de abril de 2010

soneto ao vômito

tudo que escorria pela tua boca
em fantasia de vômito e exagero
era tudo excesso de felicidade
uma emoção vadia que não coube dentro.

ralhou com coração e mente,
e encontrou no estômago um território inóspito
borbulhou e revirou-se feito mar bravio
e lançou-se feito cachoeira, numa torrente

sujou chão, pés e olhos alheios
teve quem virasse a cara, tampasse o nariz
não queriam ser assaltados pelo cheiro

a verdade, mais que relativa, porém era:
você não coube em você mesma, quis se
mostrar vísceras, num ser líquido cheio de sentimentos.